A FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE NÃO OCORRE NA UNIVERSIDADE

Návia Terezinha Pattussi
Psicanalista

Por que escolher uma formação em psicanálise, especialmente em tempos em que a escuta rareia, o simbólico se fragiliza e o sujeito é capturado por promessas de completude — tecnológicas, identitárias ou farmacológicas? Confrontamo-nos com novas formas de sofrimento, permeadas por subjetividades hiperconectadas e solitárias, por um discurso que apaga a divisão subjetiva em nome da performance. Diante disso, seguimos com perguntas que não podem ser silenciadas: quais as consequências de suprimir, a qualquer custo, os clamores da fala, de desconectar o sofrimento de suas raízes, de suprimir a implicação do sujeito diante do seu sofrimento?

A psicologia oferece diversas técnicas objetivas e pontuais, e a psicanálise se distingue delas por operar em outra lógica: a lógica do inconsciente, estruturado como uma linguagem, nascedouro do sujeito dividido. A psicanálise permanece como um campo de resistência desde sempre e sobrevive heroicamente ao reiterado tensionamento entre a comunidade científica e seus preceitos e técnica. No entanto, sustenta uma clínica que dá mostras de sua eficácia, ao demonstrar que é possível o sujeito aprender sobre si com o próprio sofrimento, em vez de aparentemente suprimi-lo a qualquer custo.

Muitos têm interesse pela psicanálise, buscam o conhecimento da teoria, mas sucumbem diante da densidade dos conceitos, da apresentação de registros psíquicos que somente tendo passado por um processo de análise pessoal possibilitam uma aproximação maior do que não é tangível, mas intuível.

A psicanálise nasceu à margem da universidade e marcada pela judeidade de Freud, o que lhe conferia um lugar de exceção no contexto científico. Nasceu dos restos insolúveis e jocosos da clínica médica, como eram considerados os quadros de histeria. Fortaleceu-se e expandiu-se talvez porque estava, justamente, à margem do discurso científico representado pela universidade. Desde o início, as teses freudianas foram consideradas especulativas, não verificáveis, excessivamente centradas na sexualidade, metodologicamente “indomáveis”.

Diz-se: uma graduação em psicologia e formação em psicanálise. Embora, atualmente, estejamos vivendo o caos de cursos que oferecem ao mercado uma “graduação em psicanálise” que promete formação psicanalítica. Chegamos ao ápice do cinismo e da perversão, em que se usa o nome da psicanálise — que tem um credenciamento há mais de um século — a serviço do neoliberalismo. Há uma conspurcação da psicanálise em prol de uma lógica de mercado que procura colapsar seus princípios para usá-la como mercadoria de fácil venda, exatamente porque se trata de uma formação não regulamentada pelo Estado. Essa é a “esperteza”, digamos assim.

Em defesa de uma psicanálise não regulamentada, surge no Brasil, no ano 2000, o Movimento de Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, que conta atualmente com em torno de 120 instituições psicanalíticas. “Apesar das diferenças existentes entre as instituições, há alguns consensos: que a psicanálise tem uma ética, que não pode ser regulamentada, que a formação de um psicanalista se dá artesanalmente por um tripé que consiste na análise pessoal, supervisão e estudo da teoria psicanalítica e áreas afins, e que a psicanálise é leiga e laica” (Movimento Articulação).

E, de fato, a psicanálise não tem regulamentação, mas tem uma regulação. Qual é a diferença?

Regulamentação vem do Estado; é um controle externo. Significa haver leis, conselhos, normas jurídicas que definem quem pode exercer determinada profissão, como deve fazê-lo, quais os requisitos de formação etc. Exemplo: o Conselho Federal de Psicologia regulamenta o exercício do psicólogo com base na Lei n.º 4.119/62.

Regulação, por outro lado, é autônoma. É o conjunto de princípios, critérios e dispositivos internos que uma comunidade ou campo de saber cria para orientar sua prática. No caso da psicanálise, a regulação vem do próprio discurso analítico, das escolas de psicanálise, da transmissão entre analistas, da análise pessoal, dos cartéis, dos seminários e da ética própria ao ofício e, atualmente, também do Movimento de Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras.

Lacan, ao criar a Escola de Psicanálise da França, colocava como fundamental um “controle” das produções de cada um, quer seja do trabalho clínico — por meio da análise de controle ou supervisão —, quer seja das questões psíquicas particulares, através da análise pessoal. Freud já preconizava essas condições como básicas para preservar a “verdade” do que seria o campo psicanalítico e a formação em psicanálise.

É possível aprender a ser psicanalista? Não se trata de um “aluno” que aprende, mas de um sujeito em travessia. Não é dominar conteúdos; é se implicar no que escapa — e que, justamente por isso, convoca. Sendo assim, a transmissão da psicanálise não se dá por aulas, mas por transferência: de trabalho, de desejo.

No entanto, a instituição psicanalítica não é garantia de formação nem reduto da “verdade” da psicanálise. Isso ficou evidente na história, quando, em paralelo à IPA — alvo de problemas inerentes à dinâmica institucional e de dissensões teóricas que tensionaram preceitos basilares da psicanálise —, cria-se o Comitê Secreto, composto por discípulos confiáveis de Freud quanto à adesão aos princípios básicos da psicanálise, relativos ao inconsciente e à concepção de sexualidade.

O ingresso numa instituição psicanalítica, apesar de não ser garantia de formação, pode — e deve — oferecer dispositivos que sustentem esse percurso e produzam “efeitos de formação”, conforme formula Lacan. Esses espaços não são fins em si, mas meios para que o desejo de saber encontre campo. São espaços onde o desejo pode operar — ou se retrair. E aqui surge uma tensão: por um lado, a responsabilidade singular do analista sobre sua formação; por outro, a função da instituição como alteridade — um lugar que se coloca como referência quanto aos preceitos psicanalíticos e sua ética.

Trata-se de percursos diferentes e, por vezes, divergentes quanto ao que seja uma graduação e uma formação. A formação do psicanalista é uma formação inconsciente, que implica o ser — e é permanente. Ninguém “forma” externamente o analista: o sujeito se autoriza — e a instituição, ou comunidade, ratifica.

Apesar de serem percursos diferentes, no entanto, psicanálise e universidade não são campos excludentes, embora haja estatutos diferentes em relação ao saber.

Lacan analisa detidamente isso ao formular que a universidade opera no discurso universitário: o saber como mestre, organizado, sistemático, transmissível em termos de conhecimento. Já a psicanálise opera no discurso analítico: o sujeito em falta, o saber suposto, o desejo do analista, o encontro com o real.

A formação em psicanálise é estruturalmente incompatível em vários pontos com a graduação na universidade, pois depende da posição subjetiva do analista, não apenas do saber teórico. Lacan retoma isso com todas as letras: a universidade transmite conhecimento; a psicanálise transmite desejo e ética do ato. A universidade certifica conhecimento; a psicanálise depende da experiência do sujeito.

Referências:

Freud, S. 2007(1914). Contribución a la historia del movimiento psicoanalitico. In Obras completas, v. 14. Buenos Aires: Amorrortu.

Freud, S. 2007(1919). Debe enseñarse el psicoanálisis en la universidad?.  In Obras completas, v. 17. Buenos Aires: Amorrortu.

Freud, S. 2007(1926). Pueden los legos ejercer el análisis? Diálogos con un juez imparcial. In Obras completas, v. 20. Buenos Aires: Amorrortu.

Lacan, J. 2003. Outros escritos. São Paulo: Zahar.

Jorge, Marco Antônio Coutinho (organização)2006. Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro:Contra Capa Livraria.

Lalande, A. 1999. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes.

Chapecó, dezembro 2025

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Návia Pattussi

Psicóloga e Psicanalista

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