As mulheres evoluiram. E os homens?

– “Você não acha que só as mulheres evoluíram? E o homem ficou para trás nessa mudança?”

A questão é pertinente e me foi direcionada através das redes sociais. Talvez estejamos, de fato, vivendo uma transformação profunda e silenciosa – apesar de seus ruidos – na relação entre homens e mulheres.

A feminilidade abriu-se a novas dimensões, e isso tem perturbado o perigoso e suposto idílio de uma relação tranquila entre os sexos.

Na essência, talvez nunca tenha sido tranquila. O que é suprimido não deixa de existir. Não é porque alguém é proibido de fazer algo que seu desejo se extingue. Ao contrário: no silêncio ele fermenta.

A psicanálise surge, no final do século XIX, em um momento de intensa repressão sexual — e de várias outras ordens — sobre as mulheres. Ela abre um espaço inédito para escutar aquilo que as histéricas daquele tempo só conseguiam expressar através de “ataques de nervos” ou de dores em diversas partes do corpo, sem causa física aparente.

A psicanálise oferece tratamento através da fala, escutando o sofrimento dessas mulheres. Os homens — pois a grande maioria dos médicos eram homens — não conseguiam ouvir. E, assim como no imaginário popular, davam sempre a mesma tradução: encenação para chamar a atenção. Elas não eram levadas a sério.

Passaram-se muitos anos. E o que presenciamos nas últimas décadas foi uma profunda transformação no perfil feminino. A mulher passou de uma posição circunscrita à maternidade e a um sexo voltado à procriação, para uma presença crescente em diversos campos da vida social — econômico, profissional e político — ainda que muito reste por conquistar.

Outro marco decisivo foi o advento da pílula anticoncepcional, que abriu caminho para uma vivência mais livre da sexualidade e da dimensão do prazer.

O maior acesso ao mercado de trabalho, a profissões antes consideradas masculinas, a ampliação da escolaridade, a independência financeira e emocional, e até a possibilidade de maternidade por técnicas laboratoriais, introduzem uma questão incômoda: para que serve um homem na vida de uma mulher?

Essa é, talvez, uma pergunta fundamental tanto para mulheres quanto para homens.

Ela toca diretamente em um modelo masculino que persiste há muito tempo e resiste a ruir: o homem como “protetor” da mulher; aquele que controla seu desejo; que supostamente lhe ensina as artes do amor — muito mais em benefício próprio; o provedor financeiro que detém o poder econômico; o homem “forte”, que “não chora”; o “macho alfa”, o predador, o conquistador de muitas mulheres, mas que “elege” uma — que deve sentir-se honrada por essa escolha.

Os critérios do que significa “ser homem” atravessam muitas conversas masculinas. Há nelas um misto de exibicionismo e competição: um ranking de virilidade em que cada um se gaba de quantas mulheres “pegou” e do que fez, em detalhes. A comparação mútua acaba funcionando como certificado de masculinidade.

Se essa lógica ainda prevalece, torna-se compreensível o espanto — e, por vezes, a intolerância — diante de uma mulher que não precisa de um homem para sustentar-se e que tende a relacionar-se sexualmente apenas quando isso corresponde ao seu próprio desejo.

Essa mulher começou a dizer não. Não, à vida supostamente segura da bolha do casamento. Não, a relações impostas. Está aprendendo a escolher e a decidir os rumos da própria vida — muitas vezes a duras penas.

Diante de uma mulher assim, alguns homens fogem. Muitos emitem julgamentos de ordem moral. Outros, incapazes de suportar a rejeição, partem para a agressão física e, em última instância, a matam.

Mas há também aqueles que vislumbram algo diferente: a experiência de estar com uma mulher que está ali apenas porque deseja estar. Não por dependência financeira. Não por segurança. Apenas por desejo, admiração. 

Uma mulher assim desestabiliza profundamente os velhos pressupostos do que significa “ser homem” em nossa sociedade.

Pois “ser homem” ou “ser mulher” não é algo simplesmente dado pela diferença biológica. É um trabalho psíquico.

Resta então uma pergunta que atravessa o nosso tempo:

O que é “ser homem” e “ser mulher” hoje?

Sobre mim

Návia Pattussi

Psicóloga e Psicanalista

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