A criança ou adolescente como vítima A palavra “vítima” vem do latim victima, que significa “pessoa ou animal morto em sacrifício”. Em seu sentido original, referia-se a alguém oferecido em sacrifício aos deuses, voluntariamente ou não. Atualmente, o termo possui diferentes sentidos: ● pessoa que sofre as consequências infelizes dos próprios atos, dos atos de outrem ou do acaso; ● pessoa que sofreu atentado à integridade física ou mental, sofrimento moral ou perda material; ● pessoa que sofre danos físicos, emocionais ou patrimoniais; ● tudo aquilo que sofre dano de qualquer espécie. Cabe salientar que a vítima, embora tenha sua integridade física ou psíquica violada, pode oferecer-se ao sacrifício voluntariamente ou não. Nos casos de abuso sexual, a criança frequentemente permanece nessa situação por medo, quando ameaçada, mas também porque é seduzida por demonstrações de afeto. Em última análise, o que ela busca, como toda criança, é ser amada pelo Outro. Esse Outro ocupa um lugar fundamental em sua vida em razão do desamparo estrutural que constitui o ser humano e o torna dependente dos cuidados — e, portanto, do amor — daqueles que o acolhem. Mesmo quando o abusador não é o pai ou a mãe, ele ocupa psiquicamente esse lugar de referência, amparo e amor. É nesse sentido que se afirma que, nesses casos, há uma dimensão incestuosa. O registro do sexual, na dimensão genital ou erótica, não existe propriamente na infância. Contudo, na concepção psicanalítica, ele comparece em seus rudimentos por meio das diversas manifestações de prazer presentes nos encontros corporais e afetivos mediados pelo outro. Exemplos disso são o ato de mamar, os cuidados corporais, as trocas de fraldas, o banho e o ninar. É justamente nesse registro que a criança se mostra extremamente suscetível à intervenção do outro, pois tende a oferecer-se em “sacrifício”, inconscientemente, na tentativa de responder ao amor daquele de quem depende. Essa característica do infantil talvez explique por que muitas situações de abuso se prolongam no tempo. Embora a criança experimente perturbação e desconforto, ela não consegue decifrar o que ocorre. A intensidade dos estímulos sexuais intencionalmente impostos pelo adulto ultrapassa aquilo que sua estrutura psíquica é capaz de discernir ou suportar. O que marca aí é um excesso de estimulação sexual precoce que a criança não consegue simbolizar. Por isso, frequentemente é apenas na adolescência, quando o sexual genital ganha sentido, que ela consegue reler retroativamente o que lhe aconteceu. É nesse sentido que Freud afirma que o trauma constitui-se como tal somente a posteriori. Enquanto é vivido, embora produza marcas na estrutura subjetiva da vítima, permanece indecifrável. Não se trata de ausência de informação racional sobre o que é uma relação sexual, mas da impossibilidade psíquica de integrar essa experiência ao repertório infantil. Charles Melman, em Para introduzir a psicanálise de hoje, sustenta que, em muitos casos de abuso, a criança é introduzida violentamente na sexualidade, à sua revelia. Em outros, porém, isso ocorre sob a aparência de afeto e sedução. Melman sugere que, quando se trata do campo fantasmático, dificilmente decorrerá daí uma psicose, mas haverá uma inscrição subjetiva marcada por uma arbitrariedade na introdução à sexualidade. O invisível que marca O título — O invisível que marca — procura justamente nomear essa violência que, na maioria das vezes, não deixa provas concretas no corpo, mas produz marcas profundas. Diferentemente da violência física, cuja agressão pode tornar-se visível por meio de hematomas ou ferimentos, a violência sexual frequentemente permanece invisível aos olhos. Sua principal prova é a palavra — quando ela consegue comparecer. Entramos então em uma questão fundamental: o que é verdade e o que pode ser fantasia ou invenção naquilo que a criança revela? Esse dilema encontra-se na própria origem da psicanálise. Os médicos encaminhavam a Freud mulheres histéricas cujos sintomas não possuíam comprovação biológica. Eram consideradas encenadoras, mentirosas ou pessoas que buscavam atenção. O descrédito da palavra feminina já se apresentava ali. No início de sua clínica, Freud também passou a estranhar o fato de muitas pacientes relatarem terem sido seduzidas ou abusadas pelos próprios pais. Posteriormente, descobre a existência das fantasias infantis e formula a distinção entre realidade material e realidade psíquica. A realidade material refere-se aos fatos concretos. Já a realidade psíquica corresponde à forma singular pela qual cada sujeito interpreta aquilo que vive, segundo seus desejos inconscientes. Na Interpretação dos sonhos, Freud afirma que “a realidade psíquica é uma forma especial de existência, que não deve ser confundida com a realidade material”. Além disso, há ainda a dimensão da mentira deliberada, que difere da realidade psíquica inconsciente. Diante disso, como distinguir a verdade? Pode-se dizer que apenas a realidade factual é verdadeira? Especialmente no campo jurídico, os julgamentos tendem a apoiar-se em provas concretas. Contudo, mesmo nas audiências, é com a linguagem e com os depoimentos que se opera. A palavra está sempre em jogo. A verdade e a palavra É no campo da linguagem que se busca algo que escapa e que possa revelar a dimensão da verdade. Jacques Lacan, psicanalista francês da geração pós-freudiana, trabalhou amplamente essa questão, dialogando inclusive com Heidegger e com a lógica. Para Lacan, a dimensão do engano aparente pode constituir a maior fonte da verdade. As palavras não remetem diretamente às coisas, mas representam o sujeito, inclusive quando ele aparentemente se equivoca. Mesmo quando a criança não fala explicitamente sobre o abuso, uma escuta atenta costuma encontrar sinais de que algo não vai bem. Quando o sofrimento psíquico não pode ser simbolizado, ele frequentemente se manifesta no corpo ou na conduta. Surgem então sintomas físicos, pesadelos, terrores noturnos, alterações comportamentais, dificuldades escolares, problemas de aprendizagem ou retraimentos. Quando existe vínculo afetivo verdadeiro, os responsáveis geralmente conseguem perceber que algo perturbador está acontecendo. Da mesma forma, os profissionais podem aprender a escutar esses sinais. Mas o que ocorre quando a criança consegue falar e, ainda assim, não encontra crédito? Pior ainda: o que acontece quando a própria mãe nega ou minimiza a gravidade do que ocorre? Mario Fleig, em O desejo perverso, afirma que “o saber é sempre fragmentário, e a condição de sua verdade está
As mulheres evoluiram. E os homens?
– “Você não acha que só as mulheres evoluíram? E o homem ficou para trás nessa mudança?” A questão é pertinente e me foi direcionada através das redes sociais. Talvez estejamos, de fato, vivendo uma transformação profunda e silenciosa – apesar de seus ruidos – na relação entre homens e mulheres. A feminilidade abriu-se a novas dimensões, e isso tem perturbado o perigoso e suposto idílio de uma relação tranquila entre os sexos. Na essência, talvez nunca tenha sido tranquila. O que é suprimido não deixa de existir. Não é porque alguém é proibido de fazer algo que seu desejo se extingue. Ao contrário: no silêncio ele fermenta. A psicanálise surge, no final do século XIX, em um momento de intensa repressão sexual — e de várias outras ordens — sobre as mulheres. Ela abre um espaço inédito para escutar aquilo que as histéricas daquele tempo só conseguiam expressar através de “ataques de nervos” ou de dores em diversas partes do corpo, sem causa física aparente. A psicanálise oferece tratamento através da fala, escutando o sofrimento dessas mulheres. Os homens — pois a grande maioria dos médicos eram homens — não conseguiam ouvir. E, assim como no imaginário popular, davam sempre a mesma tradução: encenação para chamar a atenção. Elas não eram levadas a sério. Passaram-se muitos anos. E o que presenciamos nas últimas décadas foi uma profunda transformação no perfil feminino. A mulher passou de uma posição circunscrita à maternidade e a um sexo voltado à procriação, para uma presença crescente em diversos campos da vida social — econômico, profissional e político — ainda que muito reste por conquistar. Outro marco decisivo foi o advento da pílula anticoncepcional, que abriu caminho para uma vivência mais livre da sexualidade e da dimensão do prazer. O maior acesso ao mercado de trabalho, a profissões antes consideradas masculinas, a ampliação da escolaridade, a independência financeira e emocional, e até a possibilidade de maternidade por técnicas laboratoriais, introduzem uma questão incômoda: para que serve um homem na vida de uma mulher? Essa é, talvez, uma pergunta fundamental tanto para mulheres quanto para homens. Ela toca diretamente em um modelo masculino que persiste há muito tempo e resiste a ruir: o homem como “protetor” da mulher; aquele que controla seu desejo; que supostamente lhe ensina as artes do amor — muito mais em benefício próprio; o provedor financeiro que detém o poder econômico; o homem “forte”, que “não chora”; o “macho alfa”, o predador, o conquistador de muitas mulheres, mas que “elege” uma — que deve sentir-se honrada por essa escolha. Os critérios do que significa “ser homem” atravessam muitas conversas masculinas. Há nelas um misto de exibicionismo e competição: um ranking de virilidade em que cada um se gaba de quantas mulheres “pegou” e do que fez, em detalhes. A comparação mútua acaba funcionando como certificado de masculinidade. Se essa lógica ainda prevalece, torna-se compreensível o espanto — e, por vezes, a intolerância — diante de uma mulher que não precisa de um homem para sustentar-se e que tende a relacionar-se sexualmente apenas quando isso corresponde ao seu próprio desejo. Essa mulher começou a dizer não. Não, à vida supostamente segura da bolha do casamento. Não, a relações impostas. Está aprendendo a escolher e a decidir os rumos da própria vida — muitas vezes a duras penas. Diante de uma mulher assim, alguns homens fogem. Muitos emitem julgamentos de ordem moral. Outros, incapazes de suportar a rejeição, partem para a agressão física e, em última instância, a matam. Mas há também aqueles que vislumbram algo diferente: a experiência de estar com uma mulher que está ali apenas porque deseja estar. Não por dependência financeira. Não por segurança. Apenas por desejo, admiração. Uma mulher assim desestabiliza profundamente os velhos pressupostos do que significa “ser homem” em nossa sociedade. Pois “ser homem” ou “ser mulher” não é algo simplesmente dado pela diferença biológica. É um trabalho psíquico. Resta então uma pergunta que atravessa o nosso tempo: O que é “ser homem” e “ser mulher” hoje?
A FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE NÃO OCORRE NA UNIVERSIDADE
Návia Terezinha PattussiPsicanalista Por que escolher uma formação em psicanálise, especialmente em tempos em que a escuta rareia, o simbólico se fragiliza e o sujeito é capturado por promessas de completude — tecnológicas, identitárias ou farmacológicas? Confrontamo-nos com novas formas de sofrimento, permeadas por subjetividades hiperconectadas e solitárias, por um discurso que apaga a divisão subjetiva em nome da performance. Diante disso, seguimos com perguntas que não podem ser silenciadas: quais as consequências de suprimir, a qualquer custo, os clamores da fala, de desconectar o sofrimento de suas raízes, de suprimir a implicação do sujeito diante do seu sofrimento? A psicologia oferece diversas técnicas objetivas e pontuais, e a psicanálise se distingue delas por operar em outra lógica: a lógica do inconsciente, estruturado como uma linguagem, nascedouro do sujeito dividido. A psicanálise permanece como um campo de resistência desde sempre e sobrevive heroicamente ao reiterado tensionamento entre a comunidade científica e seus preceitos e técnica. No entanto, sustenta uma clínica que dá mostras de sua eficácia, ao demonstrar que é possível o sujeito aprender sobre si com o próprio sofrimento, em vez de aparentemente suprimi-lo a qualquer custo. Muitos têm interesse pela psicanálise, buscam o conhecimento da teoria, mas sucumbem diante da densidade dos conceitos, da apresentação de registros psíquicos que somente tendo passado por um processo de análise pessoal possibilitam uma aproximação maior do que não é tangível, mas intuível. A psicanálise nasceu à margem da universidade e marcada pela judeidade de Freud, o que lhe conferia um lugar de exceção no contexto científico. Nasceu dos restos insolúveis e jocosos da clínica médica, como eram considerados os quadros de histeria. Fortaleceu-se e expandiu-se talvez porque estava, justamente, à margem do discurso científico representado pela universidade. Desde o início, as teses freudianas foram consideradas especulativas, não verificáveis, excessivamente centradas na sexualidade, metodologicamente “indomáveis”. Diz-se: uma graduação em psicologia e formação em psicanálise. Embora, atualmente, estejamos vivendo o caos de cursos que oferecem ao mercado uma “graduação em psicanálise” que promete formação psicanalítica. Chegamos ao ápice do cinismo e da perversão, em que se usa o nome da psicanálise — que tem um credenciamento há mais de um século — a serviço do neoliberalismo. Há uma conspurcação da psicanálise em prol de uma lógica de mercado que procura colapsar seus princípios para usá-la como mercadoria de fácil venda, exatamente porque se trata de uma formação não regulamentada pelo Estado. Essa é a “esperteza”, digamos assim. Em defesa de uma psicanálise não regulamentada, surge no Brasil, no ano 2000, o Movimento de Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, que conta atualmente com em torno de 120 instituições psicanalíticas. “Apesar das diferenças existentes entre as instituições, há alguns consensos: que a psicanálise tem uma ética, que não pode ser regulamentada, que a formação de um psicanalista se dá artesanalmente por um tripé que consiste na análise pessoal, supervisão e estudo da teoria psicanalítica e áreas afins, e que a psicanálise é leiga e laica” (Movimento Articulação). E, de fato, a psicanálise não tem regulamentação, mas tem uma regulação. Qual é a diferença? Regulamentação vem do Estado; é um controle externo. Significa haver leis, conselhos, normas jurídicas que definem quem pode exercer determinada profissão, como deve fazê-lo, quais os requisitos de formação etc. Exemplo: o Conselho Federal de Psicologia regulamenta o exercício do psicólogo com base na Lei n.º 4.119/62. Regulação, por outro lado, é autônoma. É o conjunto de princípios, critérios e dispositivos internos que uma comunidade ou campo de saber cria para orientar sua prática. No caso da psicanálise, a regulação vem do próprio discurso analítico, das escolas de psicanálise, da transmissão entre analistas, da análise pessoal, dos cartéis, dos seminários e da ética própria ao ofício e, atualmente, também do Movimento de Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras. Lacan, ao criar a Escola de Psicanálise da França, colocava como fundamental um “controle” das produções de cada um, quer seja do trabalho clínico — por meio da análise de controle ou supervisão —, quer seja das questões psíquicas particulares, através da análise pessoal. Freud já preconizava essas condições como básicas para preservar a “verdade” do que seria o campo psicanalítico e a formação em psicanálise. É possível aprender a ser psicanalista? Não se trata de um “aluno” que aprende, mas de um sujeito em travessia. Não é dominar conteúdos; é se implicar no que escapa — e que, justamente por isso, convoca. Sendo assim, a transmissão da psicanálise não se dá por aulas, mas por transferência: de trabalho, de desejo. No entanto, a instituição psicanalítica não é garantia de formação nem reduto da “verdade” da psicanálise. Isso ficou evidente na história, quando, em paralelo à IPA — alvo de problemas inerentes à dinâmica institucional e de dissensões teóricas que tensionaram preceitos basilares da psicanálise —, cria-se o Comitê Secreto, composto por discípulos confiáveis de Freud quanto à adesão aos princípios básicos da psicanálise, relativos ao inconsciente e à concepção de sexualidade. O ingresso numa instituição psicanalítica, apesar de não ser garantia de formação, pode — e deve — oferecer dispositivos que sustentem esse percurso e produzam “efeitos de formação”, conforme formula Lacan. Esses espaços não são fins em si, mas meios para que o desejo de saber encontre campo. São espaços onde o desejo pode operar — ou se retrair. E aqui surge uma tensão: por um lado, a responsabilidade singular do analista sobre sua formação; por outro, a função da instituição como alteridade — um lugar que se coloca como referência quanto aos preceitos psicanalíticos e sua ética. Trata-se de percursos diferentes e, por vezes, divergentes quanto ao que seja uma graduação e uma formação. A formação do psicanalista é uma formação inconsciente, que implica o ser — e é permanente. Ninguém “forma” externamente o analista: o sujeito se autoriza — e a instituição, ou comunidade, ratifica. Apesar de serem percursos diferentes, no entanto, psicanálise e universidade não são campos excludentes, embora haja estatutos diferentes em relação ao saber. Lacan analisa detidamente isso ao formular que a universidade opera no discurso universitário: